Page 63 - Revista LER&Cia Edição 89
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concurso de
                                                                             contos              / LER&CIA





               > Em 2019, o Grupo Livrarias Curitiba realizou mais           va diante do espelho como um exe­
            uma edição do tradicional Concurso de Contos. Ao todo,           cutivo vaidoso, daqueles feitos para
            mais de 500 pessoas enviaram suas histórias. Foram               vender revistas de startups.
            selecionados seis vencedores, entre eles “Milionário às             O bilhete em mãos. Fitava­o,
            10h”, de Wikerson Paz Landim, de Curitiba (PR).                  mas via carrões vermelhos, mansões
                                                                             brancas e um jet­ski em uma praia
                                                                             paradisíaca. Tudo se misturava aos
            MILIONÁRIO ÀS 10H                                                seus pensamentos, e nada mais era
                                                                             real. Toda ilusão existia.
                                                                                Às 9h58 estava em pé diante da
                                                                             porta do banco. As mãos trêmulas,
                                                                             o suor quente empapando as axi­
                                                                             las, como se caminhasse à fogueira
                                                                             da Inquisição. Foi o primeiro a en­
                                                                             trar na agência, assim que a porta se
                                                                             abriu. Flutuou em êxtase até à mesa
                                                                             do gerente.
                                                                                ­ Vim retirar um prêmio de lo­
                                                                             teria.
                                                                                Fechou os olhos e sorriu, esten­
            ILUSTRAÇÃO: FELIPE LIMA                                          a própria Dorothy vislumbrando a
                                                                             dendo o bilhete para o gerente. Era

                                                                             Cidade Esmeralda. Vencia o medo,
                                                                             o coração pulsava acelerado e ele era
                                                                             superior aos demais mortais. Cabia
                                                                             ao seu Mágico de Oz providenciar o
              Num espasmo, levantou­se de      O relógio de parede de aspecto   encanto e estaria tudo resolvido.
            chofre. Os olhos teimavam em dar  barato marcava dez para as nove da   ­ Perdão, como é seu nome?
            por real uma ilusão que só poderia  manhã.                          ­ Sérgio Rodrigues Vieira!
            existir em suas quimeras mais irre­  ­ Serei milionário às 10h.     ­ Seu Sérgio, sinto informar, mas
            freáveis. A mão trêmula não parecia   Não cabia em si enquanto espe­  há um equívoco.
            suficiente para segurar um mísero  rava a abertura do banco mais pró­  ­ Como assim?
            pedaço de papel. Apertava­o entre  ximo. Trabalho, amigos, parentes,   ­ Sim, veja: seu bilhete é do con­
            o polegar e o indicador, arquejava,  fora todos. Nada mais importava na­  curso 2735. Esses números foram
            incrédulo.                      quele instante. Era milionário, se­  sorteados no concurso 2736. Eu la­
              ­ Eu ganhei!                  nhor de si, escolhido a dedo por Mi­  mento.
              Estavam ali, uma por uma, as de­  das, valia mais perante os mortais.   Desmoronava e reduzia­se a pó
            zenas sorteadas na loteria. Todas elas,   Sorveu o último gole de café da xí­  enquanto olhava para o maldito bi­
            sem tirar nem pôr. O olhar percorria  cara e teve vontade de jogá­la longe,   lhete, incrédulo. Se fosse possível
            incontrolável os números impressos  sem motivo algum, mas não o fez. E   experimentar a sensação de morrer
            no bilhete e o início da terceira colu­  riu. Uma risada forte, malévola, rasga­  em vida, certamente ela poderia ser
            na da página 5 do jornal. Em frene­  da. E com ela veio o medo. Alguém   descrita como o último segundo vi­
            si, embaralhava as visões na tentativa  estaria bisbilhotando sua riqueza pela   vido por Sérgio. Pior era a vergonha
            de torná­las uma só. Acertara os seis  janela. Correu até a sacada e olhou   do presente ou os novos fracassos
            números da Mega Sena.           para a rua, ainda morna e tímida.   que o futuro lhe reservava? Engo­
              Respirava como milionário. Não   Vestiu­se com a calça jeans de   liu em seco e levantou­se, sem dizer
            era  pobre,  vivia  bem  até,  mas  não  ontem, mas escolheu a dedo a ca­  uma palavra. Afundou o olhar e saiu
            comia sem antes perguntar o preço  misa. Optou por uma peça cor de   trôpego, com as calças desalinhadas.
            da refeição.                    vinho, com botões perolados. Posa­  Estava atrasado para o trabalho. l


            O conteúdo do conto, seu estilo literário e ortografia são de responsabilidade exclusiva do autor.  NOVEMBRO E DEZEMBRO DE 2019  63
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