Page 25 - Revista LER&Cia Edição 85
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Leia mulheres / LER&CIA



               O ANONIMATO                  escrever um texto abolicionista que   REDESCOBRINDO
               ESCONDE UMA MULHER           dava voz aos escravizados. E quan-  AS  MULHERES
               Considerando apenas a tradição  to mais para trás olharmos na linha   NA HISTÓRIA
            escrita, ainda assim temos mulheres  cronológica da história da literatura,   Principalmente a partir  dos
            contribuindo desde períodos lon-  mais incógnitas encontraremos.   anos 70, muitos pesquisadores têm
            gínquos, mas como o domínio das    De acordo com Guilherme       se debruçado sobre a história para
            letras requeria no mínimo a alfabe-  Gontijo, muitos dos poemas da lite-  repensar o papel da mulher na
            tização, a escrita ficou reservada às  ratura provençal escritos em voz fe-  construção da literatura universal.
            mulheres que vinham de famílias ri-  minina não são assinados, enquan-  A tarefa não é fácil — da literatu-
            cas ou viviam em conventos. As que  to a maior parte dos poemas com   ra grega, por exemplo, praticamen-
            conseguiam superar o desafio da  voz masculina o são. Já na poesia   te nada sobreviveu. “É quase como
            precariedade da educação tinham  medieval, há muitos autores que os   se sobrevivessem uma ou duas mu-
            de  encarar  um  sistema  masculino  pesquisadores não conseguiram ras-  lheres por século”, relata Guilher-
            que não enxergava com bons olhos  trear, então não se pode descartar a   me. Na literatura arcaica romana,
            o desenvolvimento  intelectual das  possibilidade de que haja mulheres   Sulpícia foi a única mulher que
            mulheres, cujos papéis sociais eram  entre os nomes masculinos. O pseu-  teve seus versos conservados até os
            limitados à vida privada. Isso não as  dônimo e o anonimato seriam uma   dias atuais. “Se você for olhar, qua-
            impediu de publicar — as instigou a  forma de garantir, graças à oculta-  se nada da poesia grega arcaica so-
            burlarem o sistema.             ção do nome feminino, a sobrevi-  breviveu em bom estado. Mas as
               “Boa parte das mulheres até o sé-  vência e circulação da obra.  mulheres sobreviveram ainda pior
            culo XIX, inclusive no século XX,   “Eu  digo  que  sempre,  sempre   do que a média”, aponta o pesqui-
            vão ser publicadas com pseudônimos.  houve mulheres escrevendo. A gen-  sador.
            São  poucos os  casos das mulheres  te ainda só não tem conhecimento   No Brasil, é difícil encontrar o
            publicadas com seus nomes verda-  suficiente”, reforça Emanuela Si-  trabalho de escritoras até mesmo
            deiros. A própria Mary Shelley só vai  queira. “Muitas mulheres publica-  do século XX, como relata Mile-
            ter o nome dela na segunda edição  ram com nomes de homens e mui-  na Ribeiro Martins, professora de
            de Frankenstein”, explica Emanue-  tos  homens  publicaram,  com  seus   Literatura Brasileira e Teoria Li-
            la Siqueira, pesquisadora, tradutora  nomes, romances escritos por suas   terária na Universidade Federal
            e uma das organizadoras do projeto  companheiras, suas irmãs. E como   do Paraná. “Pesquisar sobre mu-
            Leia Mulheres, em Curitiba.     dizia Virgínia Woolf: para ela, todo   lheres  do início  do século  XX é
               Infelizmente, a prática é comum  anônimo na história da humanida-  quase um trabalho de arqueolo-
            até os dias atuais — uma das escri-  de era uma mulher.”         gia. Há poucos dados e suas obras
            toras contemporâneas mais famosas,                               são raras, muito difíceis de serem
            J. K. Rowling, adotou o pseudônimo                               recuperadas”, lamenta Milena,
            neutro em pleno fim do século XX   PARA LER                      que hoje dirige pesquisas sobre
            para não denunciar seu gênero e, as-                             autores e autoras da época.
            sim, garantir maior credibilidade no  ELAS POR ELAS                 Mas aos poucos, ao revisitar a
            mercado literário para a saga Harry   ROSA AMANDA                história com olhos de quem sabe
            Potter.                         STRAUSZ/ Nova                    o que está procurando, as lacunas
               Além dos pseudônimos, as mu-  Fronteira                       das  contribuições  femininas  para
            lheres publicavam também sob    R$ 34,90                         a literatura começam a  ser preen-
            anonimato. Em Úrsula (1858), con-                                chidas.  Para contribuir com  este
            siderado o primeiro romance escrito   UM TETO                    trabalho de valorização das vozes
            por uma mulher brasileira, a autoria   TODO SEU                  femininas na literatura, a revista
            é atribuída a “uma maranhense”. A  VIRGINIA                      LER&CIA publicará durante o ano
            maranhense era a professora Maria  WOOLF/                        uma série de perfis de escritoras fe-
            Firmina dos Reis, filha de mãe bran-  Tordesilhas                mininas célebres de diversos perío-
            ca e pai negro, que mais do que en-  R$ 34,00                    dos, que certamente merecem ser
            dossar o título de primeira roman-                               revisitadas. Acompanhe conosco e
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